
Publicado em: 03/11/2026 às 10:50
O fim do ano é um momento importante para revisar resultados, organizar o orçamento e definir prioridades para o ciclo seguinte. Para clínicas médicas e odontológicas, porém, o planejamento para 2027 exige atenção especial: mudanças tributárias e trabalhistas já têm repercussões concretas e exigirão adaptações na gestão dos negócios.
A Reforma Tributária do consumo avança para uma nova etapa a partir de janeiro de 2027. Ao mesmo tempo, a mudança constitucional que prevê o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal exige que os empregadores avaliem seus modelos de funcionamento e dimensionamento das equipes.
Essas alterações se somam a desafios que já fazem parte da rotina das clínicas, como a contratação de profissionais, a relação com prestadores de serviços, a organização dos documentos, a proteção das informações dos pacientes e a prevenção de passivos judiciais.
Nesse cenário, preparar-se para 2027 não significa apenas acompanhar novas leis. Significa avaliar como elas afetam a realidade de cada negócio e tomar decisões com antecedência.
A Reforma Tributária do consumo entra em uma etapa importante em 2027, com a extinção do PIS e da Cofins e o início da cobrança da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), conf
orme as regras de transição. A implementação do novo sistema também envolve o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), cuja substituição gradual do ICMS e do ISS ocorrerá nos anos seguintes.
Para clínicas e empresas da área da saúde, a mudança merece atenção porque a tributação interfere diretamente na formação de preços, nas margens dos serviços e no planejamento financeiro.
Em 28 de outubro de 2026, o Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou o cálculo da alíquota de referência da CBS para 2027 em 11,3%. O percentual será encaminhado ao Senado Federal, responsável por fixar a alíquota de referência por meio de resolução.
Esse percentual, contudo, não corresponde necessariamente à carga tributária que será efetivamente suportada por cada clínica, pois a tributação dependerá das regras aplicáveis à atividade, do regime tributário e dos créditos que poderão ser aproveitados.
Para os serviços de saúde contemplados pela legislação, está prevista uma redução de 60% das alíquotas de referência da CBS e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Isso significa que a análise deve considerar não apenas a alíquota de referência, mas também o tratamento tributário específico dos serviços prestados pela clínica.
Na prática, a reforma pode repercutir na formação de preços, na estrutura de custos, no aproveitamento de créditos tributários e na rentabilidade do negócio. Por isso, não é recomendável presumir que a carga tributária aumentará ou diminuirá sem uma simulação individualizada.
O que a clínica deve fazer agora?
Atenção: não existe uma resposta única para todas as clínicas. O impacto dependerá, entre outros fatores, do regime tributário, dos serviços oferecidos, da estrutura de custos e das regras aplicáveis a cada operação.
Por isso, o planejamento tributário deve ser feito de forma integrada entre a clínica, a contabilidade e a assessoria jurídica.
Em outubro de 2026, foi promulgada a Emenda Constitucional nº 141, que estabelece o fim da escala 6x1, assegura dois dias de repouso semanal remunerado e prevê a redução gradual da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, conforme o cronograma constitucional.
A mudança exige planejamento especialmente dos estabelecimentos que dependem de atendimento contínuo, funcionamento aos sábados, horários estendidos ou equipes distribuídas em diferentes turnos.
Em uma clínica, por exemplo, a reorganização da jornada pode afetar a recepção, o atendimento telefônico, o agendamento, o faturamento, os setores administrativos e as equipes assistenciais contratadas sob o regime da CLT.
Sem planejamento, a clínica pode enfrentar dificuldades para manter os horários de atendimento, redistribuir tarefas e controlar os custos com pessoal.
Como começar a se preparar?
O primeiro passo é mapear as jornadas atuais. A clínica precisa identificar quem trabalha em escala 6x1, quais profissionais já cumprem jornadas inferiores ao limite legal e quais atividades dependem de cobertura presencial em horários específicos.
Em seguida, é importante:
Também é importante considerar que a alteração da jornada não se resolve apenas com uma nova escala na planilha. A organização do trabalho precisa respeitar os limites legais, os intervalos, os descansos e as regras aplicáveis a cada vínculo.
Para clínicas que funcionam aos sábados ou mantêm horários estendidos, antecipar essas análises pode ajudar a evitar improvisos e decisões que aumentem os custos ou gerem passivos trabalhistas.
A reorganização das equipes também é uma oportunidade para avaliar como a clínica contrata e se relaciona com os profissionais que atuam em sua operação.
É comum que negócios da saúde contem com diferentes modelos de contratação: empregados, médicos parceiros, profissionais autônomos, pessoas jurídicas e prestadores de serviços especializados.
Cada relação deve ser analisada de acordo com sua realidade, considerando a legislação aplicável, as responsabilidades assumidas e a forma como o trabalho é efetivamente executado.
Um contrato bem elaborado é importante, mas não afasta, por si só, o risco de reconhecimento de vínculo empregatício quando os fatos demonstram a presença dos requisitos legais.
Da mesma forma, contratos genéricos ou desatualizados podem deixar dúvidas sobre remuneração, responsabilidades, uso de estrutura e equipamentos, divisão de despesas, substituições, rescisão e tratamento de informações dos pacientes.
Antes de 2027, vale revisar:
A revisão deve refletir o funcionamento real da clínica, e não apenas reproduzir modelos utilizados por outros estabelecimentos.
A preparação para o próximo ano também deve incluir uma revisão dos documentos que orientam a relação da clínica com seus pacientes e profissionais.
A rotina assistencial envolve decisões e procedimentos que precisam ser adequadamente documentados. Quando faltam registros ou os documentos não correspondem ao atendimento efetivamente realizado, a clínica pode enfrentar dificuldades para demonstrar quais informações foram prestadas, quais orientações foram dadas e quais cuidados foram adotados.
Entre os principais pontos de atenção estão:
Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLEs): devem ser adequados aos procedimentos
realizados, com informações claras sobre indicações, riscos relevantes, alternativas e cuidados posteriores.
Prontuários: precisam refletir adequadamente o atendimento, incluindo os registros clínicos pertinentes, as orientações e a evolução do paciente.
Contratos e políticas de atendimento: as regras sobre agendamento, cancelamento, pagamentos, faltas,
continuidade do tratamento e demais condições devem ser claras e compatíveis com a legislação.
Uso de imagens e informações dos pacientes: a clínica deve avaliar as bases legais e os procedimentos adotados para coleta, armazenamento, acesso e utilização de dados pessoais, inclusive dados sensíveis e fotografias clínicas.
Fluxos internos: a equipe precisa saber como agir diante de solicitações de prontuário, reclamações, intercorrências, pedidos de esclarecimento e outras situações que demandem cuidado jurídico.
A prevenção não depende apenas da existência de documentos. É necessário verificar se eles estão atualizados, se são compreensíveis e se a equipe realmente os utiliza de maneira adequada.
O encerramento do ano também é uma oportunidade para avaliar a estrutura empresarial da clínica.
O crescimento do negócio, a entrada de novos sócios, a abertura de unidades, a aquisição de equipamentos e a contratação de profissionais podem exigir ajustes societários e contratuais.
É importante verificar se o contrato social corresponde à realidade da empresa, se as responsabilidades dos sócios estão bem definidas e se existem regras claras para decisões estratégicas, distribuição de resultados, entrada e saída de sócios e solução de divergências.
Outro ponto relevante é a análise dos contratos com fornecedores, plataformas de gestão, empresas de tecnologia, operadoras de saúde e parceiros comerciais.
Em um cenário de mudanças tributárias e trabalhistas, conhecer os custos, as obrigações assumidas e os riscos contratuais ajuda o gestor a tomar decisões mais consistentes.
O planejamento empresarial também deve considerar o fluxo de caixa, os investimentos previstos e a capacidade financeira necessária para implementar mudanças operacionais.
Para transformar essas preocupações em ações concretas, a clínica pode organizar um plano de trabalho para os próximos meses.
Ainda em 2026:
Esse roteiro deve ser adaptado à realidade de cada negócio. Clínicas de pequeno porte, centros médicos com múltiplas especialidades e estabelecimentos com funcionamento ampliado podem ter necessidades bastante diferentes.
As mudanças previstas para 2027 reforçam a importância de uma gestão que vá além da rotina assistencial. O planejamento tributário, a organização das relações de trabalho, a revisão dos contratos e a adequação dos documentos precisam fazer parte das decisões estratégicas da clínica.
Esperar que as mudanças produzam efeitos para só então buscar soluções pode limitar as alternativas disponíveis e aumentar o custo das adaptações.
Por outro lado, antecipar diagnósticos permite identificar prioridades, organizar investimentos e implementar ajustes de forma planejada.
A assessoria jurídica preventiva contribui para esse processo ao identificar riscos, revisar documentos e contratos, orientar decisões empresariais e acompanhar as adequações necessárias à realidade de cada clínica.
No CRM Advocacia, acreditamos que cuidar de quem cuida da saúde também significa oferecer suporte jurídico para que médicos, clínicas e negócios da saúde possam desenvolver suas atividades com mais segurança e previsibilidade.
Sua clínica já começou a se preparar para 2027?
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